Neste texto4 tópicos
Os investimentos necessários para sustentar a expansão da inteligência artificial não terminam na compra de servidores e processadores. Por trás das novas estruturas computacionais, cresce uma cadeia responsável por fornecer energia, construir instalações e, principalmente, retirar o calor produzido por equipamentos que funcionam continuamente.
Essa corrida pode ganhar escala bilionária no Brasil. Estimativas divulgadas pelo Ministério das Comunicações apontam que o país poderá receber entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em investimentos em data centers nos próximos quatro anos. Atualmente, o mercado brasileiro reúne cerca de 200 empreendimentos, ocupa a 12ª posição mundial e concentra aproximadamente metade da infraestrutura do setor na América Latina.
Enquanto os maiores anúncios costumam destacar capacidade de processamento, disponibilidade de terrenos e acesso à energia, uma parte menos visível da operação ganha importância econômica: a refrigeração. Sem gestão térmica adequada, servidores podem reduzir o desempenho automaticamente, apresentar falhas ou interromper serviços digitais usados por bancos, empresas, governos e consumidores.
O custo de retirar o calor produzido pela IA
O desafio aumentou com a adoção de servidores equipados com aceleradores de inteligência artificial. Esses equipamentos concentram mais capacidade computacional em espaços menores, elevando a densidade de energia e a quantidade de calor produzida em cada rack.
A Agência Internacional de Energia estima que os data centers consumiram cerca de 415 terawatts-hora de eletricidade em 2024, o equivalente a 1,5% da demanda mundial. No cenário-base da entidade, o consumo deve mais que dobrar e chegar a aproximadamente 945 terawatts-hora em 2030. Os servidores acelerados, utilizados principalmente em aplicações de IA, devem responder por quase metade desse crescimento.
Parte relevante dessa eletricidade não alimenta diretamente os processadores. Ela é utilizada para movimentar ventiladores, bombas, compressores e outros componentes encarregados de manter a temperatura operacional. De acordo com o Departamento de Energia dos Estados Unidos, a refrigeração pode representar até 40% do consumo energético total de um data center, dependendo do projeto, da localização e da eficiência dos equipamentos.

“A refrigeração deixa de ser uma infraestrutura de apoio e passa a ser um elemento crítico da operação”, afirma Patrick Galletti, engenheiro mecatrônico e CEO do Grupo Retec, empresa especializada em climatização e refrigeração.
Segundo o executivo, a elevada capacidade de processamento dos equipamentos de IA exige controle permanente das condições ambientais. Uma falha no sistema térmico pode afetar máquinas de alto valor e comprometer serviços que precisam permanecer disponíveis durante 24 horas por dia.
Climatização deixa de ser apenas ar-condicionado
A refrigeração de um data center envolve uma estrutura mais complexa do que os aparelhos de ar-condicionado encontrados em escritórios e residências. O projeto precisa controlar temperatura, umidade, pressão e circulação de ar, além de oferecer redundância caso algum equipamento apresente defeito.
Entre as soluções utilizadas estão corredores quentes e frios, sistemas de água gelada, sensores distribuídos pelo ambiente, automação predial e plataformas que ajustam a operação conforme a carga dos servidores. Equipamentos de inteligência artificial com maior densidade também aceleram a adoção da refrigeração líquida, capaz de retirar o calor diretamente de componentes como processadores e placas aceleradoras.
A ASHRAE, entidade internacional que desenvolve referências técnicas para climatização, passou a recomendar soluções líquidas para instalações de inteligência artificial e computação de alto desempenho com elevada densidade. A organização avalia que a tecnologia pode reduzir o trabalho realizado pelos sistemas mecânicos e diminuir a energia consumida por ventiladores e resfriadores.
“Existe uma discussão muito forte sobre capacidade energética, mas pouco se fala sobre eficiência térmica”, diz Galletti. Para ele, o controle de temperatura precisa ser considerado desde a concepção do empreendimento, e não incorporado apenas depois da definição dos equipamentos computacionais.
Essa integração permite dimensionar corretamente tubulações, bombas, trocadores de calor e sistemas de emergência. Também evita que uma instalação seja construída para uma geração de servidores e fique impossibilitada de receber máquinas mais potentes alguns anos depois.
Uma cadeia que vai além das empresas de tecnologia
A construção de novos data centers movimenta fornecedores de diferentes áreas. Empresas de engenharia e construção civil são responsáveis pelos edifícios, enquanto fabricantes de geradores, transformadores, baterias e sistemas de climatização fornecem a infraestrutura necessária para manter as operações.
Outro mercado aparece depois da inauguração. Como os equipamentos funcionam sem interrupção, os operadores precisam contratar manutenção preventiva, monitoramento remoto, substituição de componentes e equipes preparadas para responder rapidamente a falhas.

“Agora existe a possibilidade de participar da construção dessa infraestrutura”, afirma Galletti. Na avaliação do executivo, o avanço pode abrir espaço para empresas brasileiras especializadas em sistemas críticos e aumentar a procura por profissionais de engenharia, automação, elétrica, refrigeração e gestão de instalações.
O movimento cria oportunidades não apenas para grandes fabricantes globais. Integradores regionais, prestadores de manutenção e fornecedores de componentes podem participar dos projetos ou atender estruturas menores instaladas fora dos principais polos tecnológicos.
Expansão pressiona o planejamento energético
A disponibilidade de fontes renováveis aparece como uma vantagem competitiva do Brasil na disputa por novos empreendimentos. Ao mesmo tempo, a concentração de grandes cargas em determinadas regiões pode exigir reforços em linhas de transmissão, subestações e sistemas de distribuição.
A Empresa de Pesquisa Energética afirma que acompanha o aumento dos pedidos de conexão apresentados por projetos de data centers. A expansão dessas instalações já foi incorporada às previsões oficiais de carga elétrica para o período entre 2026 e 2030.
Os incentivos fiscais para o setor, entretanto, ainda dependem do Congresso. A medida provisória que criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, perdeu validade em 25 de fevereiro de 2026.
Um projeto com regras semelhantes foi aprovado pela Câmara dos Deputados e enviado ao Senado. Até esta quarta-feira (29), o PL 278/2026 continuava em tramitação e aguardava a inclusão de um requerimento na ordem do dia do plenário.