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Quando uma amiga pediu sua máquina de costura emprestada, em 2020, Aline Odara sugeriu organizar uma vaquinha para que ela comprasse o próprio equipamento. Havia um problema: Aline já tinha feito tantas campanhas durante a pandemia que estava constrangida de pedir dinheiro novamente.
A solução foi transformar pedidos esporádicos em uma contribuição recorrente. A conta era simples: se 20 amigos doassem R$ 20 por mês, seria possível reunir R$ 400 para apoiar mensalmente o trabalho de uma mulher negra.
Em cinco dias, a iniciativa chegou a 60 doadores recorrentes. Três meses depois, eram quase 300. Dessa experiência nasceu, em 1º de setembro de 2020, o Fundo Agbara.
Seis anos depois, a organização afirma ter captado aproximadamente R$ 20 milhões e impactado mais de 20 mil mulheres por meio de programas de formação profissional, empreendedorismo e apoio financeiro. O valor representa a captação acumulada, e não o patrimônio atual de um fundo tradicional de investimentos.
Do call center ao empreendedorismo social
Criada em Campinas, no interior paulista, Aline começou a ajudar o padrasto a produzir salgados aos 8 anos. Na adolescência, vendeu bijuterias e trabalhou como animadora de festas. Aos 18, conseguiu o primeiro emprego formal em um call center.
Uma bolsa do Prouni permitiu que entrasse no curso de Ciências Sociais da PUC Campinas aos 27 anos. Ela também estudou pedagogia e passou por trabalhos como recepcionista, auxiliar de cozinha e vendedora no sinal.
No início de 2020, Aline estava desempregada havia cerca de um ano. Dois dias antes do fechamento das atividades provocado pela Covid-19, foi convocada pela Prefeitura de Campinas para trabalhar como professora de Educação Infantil.
O salário permitiu que ajudasse a família a sair de uma quitinete e começasse a planejar além das despesas imediatas. Foi essa mudança pessoal que inspirou a ideia de ampliar o acesso de outras mulheres negras a dinheiro, formação e oportunidades.
Como a vaquinha ganhou escala
O Agbara começou com doações individuais, mas percebeu que precisaria se formalizar para receber recursos maiores. A organização adotou planejamento estratégico, métricas de impacto e uma estrutura de governança com Assembleia Geral, Conselho Fiscal, Conselho Consultivo e Diretoria Executiva.
Atualmente, combina capacitação com transferência de recursos. Em uma das edições do programa Avança, Preta!, por exemplo, as participantes receberam formação em gestão, precificação, vendas e organização financeira, além de aportes entre R$ 1.250 e R$ 5 mil.

O fundo também ampliou sua atuação para programas de carreira executiva, produção de pesquisas e articulação de políticas públicas. Entre os parceiros divulgados estão BTG Pactual, Ambev, JPMorgan, Fiat e Dengo.
A trajetória levou Aline a receber o Prêmio Empreendedor Social da Folha em 2023. Em 2025, ela também foi incluída pelo MIPAD entre personalidades afrodescendentes de destaque na área de filantropia e impacto social.
Um mercado grande, mas com pouco crédito
O público atendido pelo Agbara representa uma parcela relevante da economia brasileira. O país tem aproximadamente 10,4 milhões de mulheres empreendedoras, das quais 50,4% são negras, segundo levantamento do Sebrae baseado na PNAD.
A participação no crédito, entretanto, não acompanha o tamanho desse grupo. Para cada R$ 10 destinados a micro e pequenas empresas, apenas R$ 2,90 chegam a negócios liderados por mulheres. O dado não possui recorte racial, mas ajuda a dimensionar a barreira enfrentada pelas empreendedoras.
A desigualdade começa antes da abertura de uma empresa. Em 2022, a renda média das pessoas brancas era 87% superior à das pessoas negras. A maior diferença aparecia entre homens brancos e mulheres negras, segundo o Ipea.
Isso reduz a capacidade de formar reservas, oferecer garantias bancárias e financiar o negócio com recursos próprios. O Agbara tenta atuar justamente nesse intervalo, combinando pequenos aportes com conhecimento e redes de relacionamento.