Renda fixa

Tesouro Direto bate recorde: por que entraram R$ 10,1 bilhões líquidos em junho

Juros ainda elevados, estreia do Tesouro Reserva e avanço dos pequenos aportes ajudam a explicar o maior saldo mensal da história do programa

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O Tesouro Direto registrou em junho a maior entrada líquida de recursos desde o início de sua série histórica. Foram R$ 14,76 bilhões em aplicações e R$ 4,66 bilhões em resgates e vencimentos, deixando uma emissão líquida positiva de R$ 10,10 bilhões.

Ao todo, os investidores realizaram 1.530.276 operações durante o mês. O volume bruto investido foi o segundo maior já registrado pelo programa, apenas R$ 30 milhões abaixo dos R$ 14,79 bilhões aplicados em março de 2026.

O resultado combina três movimentos: a permanência da taxa Selic em um nível elevado, a chegada do Tesouro Reserva e a expansão da base de pessoas físicas que utiliza os títulos públicos tanto para guardar dinheiro no curto prazo quanto para proteger o patrimônio da inflação.

O que significa a emissão líquida de R$ 10,1 bilhões?

A emissão líquida representa a diferença entre o dinheiro aplicado pelos investidores e o valor retirado do Tesouro Direto no mesmo período.

Em junho, a conta foi a seguinte:

R$ 14,76 bilhões em aplicações menos R$ 4,66 bilhões em resgates e vencimentos, resultando em R$ 10,10 bilhões líquidos.

Portanto, o recorde não significa apenas que muita gente comprou títulos. Ele mostra que o volume de novas aplicações superou amplamente o dinheiro que saiu do programa.

As aplicações cresceram 44,5% em relação a maio, quando haviam somado R$ 10,22 bilhões. Na comparação com junho de 2025, o avanço chegou a 156%.

Por que o Tesouro Direto atraiu tanto dinheiro?

O Tesouro Nacional não atribuiu formalmente o resultado a uma única causa. Os dados, porém, indicam uma combinação de juros altos, lançamento de um novo produto e aumento da participação das pessoas físicas.

Selic elevada manteve a renda fixa atraente

A taxa Selic terminou junho em 14,25% ao ano, após o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduzir os juros em 0,25 ponto percentual na reunião dos dias 16 e 17 daquele mês. Mesmo com o início do ciclo de cortes, a taxa continuou em um patamar elevado.

Esse cenário favorece especialmente os títulos pós-fixados ligados à taxa básica de juros. Quanto maior a Selic, maior tende a ser a remuneração bruta de papéis como o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva.

Juntos, os dois títulos receberam R$ 6,3 bilhões em junho, equivalentes a 42,3% de todas as vendas do Tesouro Direto no mês. Foi o grupo mais procurado pelos investidores.

Tesouro Reserva movimentou R$ 2,09 bilhões

Outro fator importante foi a estreia do Tesouro Reserva, lançado em maio pelo Tesouro Nacional, pela B3 e pelo Banco do Brasil.

O título acompanha 100% da Selic, aceita aplicações a partir de R$ 1 e permite solicitações de resgate praticamente a qualquer momento. O produto foi desenvolvido para disputar o dinheiro usado em reservas de emergência, poupança, CDBs com liquidez diária e nas chamadas “caixinhas” dos bancos digitais.

Somente em junho, o Tesouro Reserva recebeu aproximadamente R$ 2,09 bilhões, o equivalente a 14,2% das aplicações realizadas no mês. O desempenho do novo produto ajudou a elevar o volume total destinado aos títulos ligados à Selic.

O Tesouro Reserva ainda estava disponível inicialmente por meio do Banco do Brasil. A expectativa anunciada pelo programa é que outras instituições sejam habilitadas posteriormente.

Investidores também buscaram proteção contra a inflação

Os títulos vinculados ao IPCA ficaram muito próximos dos papéis ligados à Selic.

Tesouro IPCA+, Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais, Tesouro RendA+ e Tesouro Educa+ movimentaram juntos R$ 6,1 bilhões, ou 41% das vendas de junho.

Esses títulos oferecem uma taxa fixa acrescida da inflação medida pelo IPCA. Quando mantidos até o vencimento, são usados principalmente por quem deseja preservar o poder de compra em objetivos de médio e longo prazo.

O Tesouro RendA+, voltado à formação de renda para a aposentadoria, respondeu por 4,6% das vendas. O Tesouro Educa+, criado para financiar gastos futuros com educação, representou 2%.

Prefixados receberam R$ 2,5 bilhões

Os títulos prefixados concentraram R$ 2,5 bilhões, correspondentes a 16,7% das aplicações.

Nessa modalidade, a taxa de rentabilidade é definida no momento da compra. O investidor consegue saber quanto receberá no vencimento, desde que carregue o título até a data final.

Os prefixados podem ganhar procura quando os investidores esperam que os juros caiam no futuro. Isso ocorre porque a pessoa garante antecipadamente a taxa disponível no momento da aplicação.

A estratégia, entretanto, envolve risco de oscilação caso o título seja vendido antes do vencimento.

Quais títulos foram os preferidos em junho?

A distribuição das aplicações mostra uma disputa equilibrada entre liquidez e proteção de longo prazo:

Grupo de títulosAplicaçõesParticipação
Tesouro Selic e Tesouro ReservaR$ 6,3 bilhões42,3%
Títulos ligados ao IPCAR$ 6,1 bilhões41%
Títulos prefixadosR$ 2,5 bilhões16,7%

Os números indicam que uma parcela relevante dos investidores ainda procura aproveitar a Selic elevada. Ao mesmo tempo, quase o mesmo volume foi destinado a títulos de inflação, geralmente usados em planos de longo prazo.

Pequenos aportes dominaram as operações

O recorde não foi formado apenas por aplicações milionárias. Das 1,53 milhão de operações realizadas no mês, 50,7% tinham valor de até R$ 1 mil.

Considerando aportes de até R$ 5 mil, a participação chegou a 75,4% do número total de operações. O investimento médio, contudo, ficou em R$ 9.648,34, valor influenciado pelas aplicações maiores.

A predominância dos aportes menores reforça a expansão do Tesouro Direto entre investidores de varejo. O programa permite a compra de frações dos títulos, reduzindo o valor necessário para começar.

No caso do Tesouro Reserva, o investimento mínimo anunciado é de R$ 1. Nos demais títulos, o valor mínimo depende do preço e da fração disponível no momento da compra.

Número de investidores ativos se aproxima de 3,7 milhões

A base de investidores também cresceu durante junho. O Tesouro Direto terminou o mês com 3.689.486 investidores ativos, ou seja, pessoas que mantinham algum saldo aplicado no programa.

Foram 97.271 investidores ativos adicionais em apenas um mês. Em 12 meses, o crescimento chegou a 21,2%.

O número total de pessoas cadastradas alcançou 35.853.678, após a entrada de 261.877 novos cadastros no mês. Ter cadastro, porém, não significa necessariamente possuir investimentos ativos.

Estoque do Tesouro Direto chegou a R$ 262,5 bilhões

Com a entrada líquida de recursos e a valorização dos títulos, o estoque do Tesouro Direto encerrou junho em R$ 262,5 bilhões.

O montante cresceu 4,6% em relação aos R$ 251 bilhões registrados em maio. Na comparação com junho de 2025, quando o estoque era de R$ 180,4 bilhões, a alta foi de 45,5%.

Apesar de os títulos da Selic terem liderado as vendas do mês, os papéis corrigidos por índices de preços ainda representam a maior parte de todo o dinheiro acumulado no programa:

  • títulos ligados à inflação: R$ 132,2 bilhões, ou 50,4%;
  • títulos ligados à Selic: R$ 97,1 bilhões, ou 37%;
  • títulos prefixados: R$ 33,1 bilhões, ou 12,6%.

A composição mostra que o investidor do Tesouro Direto não utiliza o programa apenas para reservas de curto prazo. Metade do estoque permanece vinculada a títulos de inflação, que costumam ser associados a objetivos mais longos.

Qual título do Tesouro Direto combina com cada objetivo?

O recorde de junho não significa que um único título seja adequado para todos. A escolha deve considerar o prazo, a finalidade do dinheiro e a possibilidade de precisar resgatá-lo antecipadamente.

Tesouro Selic

É geralmente procurado por quem está começando ou deseja formar uma reserva de emergência. O título acompanha a taxa básica de juros e tende a sofrer menos oscilações do que os prefixados e os papéis vinculados ao IPCA.

Tesouro Reserva

Foi criado para manter dinheiro disponível no curto prazo. Rende 100% da Selic, aceita aplicação a partir de R$ 1 e permite resgate imediato pela instituição participante.

Tesouro IPCA+

É usado para objetivos de médio e longo prazo, pois combina a variação da inflação com uma taxa fixa. Pode ser uma alternativa para quem busca preservar o poder de compra até o vencimento.

Tesouro Prefixado

Permite conhecer antecipadamente a taxa contratada. É mais indicado quando o investidor possui uma data definida para usar o dinheiro e pretende manter o papel até o vencimento.

Tesouro RendA+ e Educa+

O RendA+ foi estruturado para pagar renda mensal durante 20 anos após o período de acumulação. O Educa+ gera pagamentos mensais durante cinco anos e é voltado ao financiamento de estudos.

Tesouro Direto tem risco?

Os títulos são emitidos pelo governo federal e possuem garantia do Tesouro Nacional. Isso não significa, porém, que o saldo nunca possa oscilar.

Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ passam pela chamada marcação a mercado. Caso o investidor venda antes do vencimento, o preço será determinado pelas condições do mercado naquele dia. O resgate antecipado pode gerar rendimento diferente do contratado e, em determinadas situações, perda sobre o valor investido.

Também há cobrança de Imposto de Renda pela tabela regressiva da renda fixa. O IOF incide quando o resgate ocorre nos primeiros 30 dias. Dependendo do título e do valor aplicado, também pode existir taxa de custódia da B3.

O que o recorde revela sobre o investidor brasileiro?

Os números de junho mostram que os juros elevados continuam direcionando recursos para a renda fixa, mesmo após o Banco Central iniciar uma redução gradual da Selic.

Também indicam uma mudança na forma como o Tesouro Direto é utilizado. O programa passou a oferecer produtos para reserva imediata, proteção contra a inflação, aposentadoria e educação, ampliando sua presença além do investidor tradicional que comprava apenas Tesouro Selic ou Prefixado.

O recorde de R$ 10,1 bilhões em emissão líquida nasceu da combinação entre compras próximas do maior nível da história e um volume relativamente baixo de retiradas. Mais do que uma corrida para um único papel, junho registrou uma divisão quase equilibrada entre títulos ligados à Selic e títulos protegidos contra a inflação.

Transparência editorial

Fontes consultadas
  • Secretaria do Tesouro Nacional, Ministério da Fazenda, Banco Central, Tesouro Direto e B3

Murilo Rodrigues é jornalista formado pela PUCRS, com atuação nas áreas de conteúdo digital, SEO e tendências. Tem experiência na construção de narrativas digitais estratégicas, unindo apuração, linguagem contemporânea e análise de tendências. Ele é fundador do Anteora. Pautas em murilo@anteora.com.br

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